SAMUEL QUE MANDA
Um estágio insuportável e uma fofoca que saiu do controle.
Pega a visão: em 2008 eu era estagiário numa empresa de uma senhora publicitária. O escritório era num apê meio decadente no Leme — luxuoso, mas com cheiro de carpete mofado e quadros pregados dos rodapés até o teto em todas as paredes do apartamento. Eu passava o dia fazendo clipping com notícias, menções em qualquer veículo de mídia, blog, site de reclamação, nota de rodapé, tudo, absolutamente tudo. Era um trabalho de corno: pegar pilhas enormes de papel impresso, ler tudo e introduzir num sistema arcaico que rodava em DOS e gerava relatórios quantitativos e qualitativos pra empresas entenderem suas bases de dados e elaborar posicionamento de marca e estratégias de marketing. Era um porre.
O marido da minha chefe era um velho ranzinza que fumava Gudang o dia inteiro dentro da mesma sala que eu, ele era um negociador de arte arrogante — o cheiro era insuportável. Ao longo do dia eu descia pra almoçar ou comprar um lanche, fumava um baseado. E foi assim que comecei a ouvir a fofoca. Todo mundo — porteiro, faxineira, passeador de cachorro — falava de um tal de Samuel. Sempre no mesmo tom: “isso não pode ficar na mão do Samuel”, “a família está revoltada com o Samuel”. E ninguém explicava quem era.
Por alguma razão, eu nunca tive coragem de perguntar pra ninguém, quem era o Samuel. Eu só escutava. E quanto mais eu escutava, mais estranho ficava.
Foi aí que eu comecei a reparar em dois netos do velho da cobertura. O Roberto, já quase com quarenta, meio gasto, e a Estela, bem mais nova, devia ter uns vinte e poucos, mas com aquele jeito de quem já aprendeu cedo a brigar por dinheiro. Eu não falava com eles, mas reconhecia de vista. E um dia, fumando um baseado numa marquise do play do prédio, acabei escutando uma conversa dos dois — sem querer, mas também sem fazer muita força pra não ouvir.
Eles estavam tensos. Falando baixo, mas rápido. “A gente tem que dar um jeito no Samuel”, o Roberto dizia. “Tem que fazer ele falar nosso nome, senão vamos ficar presos nisso sei lá quanto tempo.” A Estela concordava, meio atravessando: “O nome do papai ele não vai falar, esquece. Ele não vai escolher o papai.” E aí veio o acordo, dito quase como quem já tinha pensado naquilo antes: se o Samuel falasse o nome de um dos dois, eles dividiam tudo depois. Simples assim.
Eu voltei pra casa com aquilo rodando na cabeça. Comecei a anotar. Horário, lugar, quem falou o quê, em que tom. Sem perceber muito, montei uma espécie de linha do tempo paralela, só com fragmentos sobre o Samuel.
Dormi com isso na cabeça.
E aí tive um sonho estranho. Sonhei que acordei no dia seguinte e fui trabalhar normalmente. Entrei no elevador do prédio e tinha um cara lá dentro. Uma figura esquisitíssima. Terno branco, sapato branco, chapéu Panamá puxado pra baixo. Gravata verde, camisa meio vermelha, meio amarela — uma combinação que não fazia sentido, mas também não parecia aleatória. Ele não me olhava direto. Ficava com o rosto baixo, me observando por cima, sem mostrar os olhos. Tinha alguma coisa ali, uma presença meio atravessada, como se fosse um Zé Pelintra tropical, deslocado, fora do lugar.
Acordei com aquela imagem.
Levantei meio pesado, fui trabalhar. Mesmo prédio, mesmo cheiro, mesmo velho fumando aquele Gudang insuportável dentro da sala. Sentei e fiz o que eu fazia todo dia: pilhas e pilhas de clipping, jogando tudo dentro do sistema.
Aí veio o feriado. Sexta. Fiquei uns dias sem pisar lá.
Quando voltei na segunda, senti que tinha alguma coisa estranha antes mesmo de sentar. Minha chefe tava atrás do computador, olhando pra tela, e depois levantou os olhos devagar pra mim com uma cara que não prometia nada de bom.
— Pedro, quem é Samuel?
Eu não entendi a pergunta.
— Hã? Como assim?
— Quem é Samuel?
— Eu não sei quem é Samuel.
— Sabe sim. Claro que sabe.
— Não, eu não sei…
— Claro que sabe. Você escreveu o nome dele centenas de vezes no sistema e bagunçou todo o gráfico que eu precisava entregar pro cliente hoje.
Eu fiquei parado, tentando entender.
— Como assim?
Ela girou a tela na minha direção.
— De repente existe uma variável aqui chamada Samuel. Eu quero saber o que significa isso.
— Pedro, a pilha que você inseriu na quinta-feira tá ali. Eu quero que você refaça tudo. Sem escrever o nome Samuel. Não quero ver esse nome em lugar nenhum.
Eu olhei pra pilha. Depois olhei pra ela.
Naquele intervalo curto, passou tudo pela minha cabeça ao mesmo tempo: os 520 reais por mês, as pilhas de papel, o sistema jurássico, o cheiro de Gudang, aquela casa mofada, o cliente — uma empresa de telefonia gigante, dessas que anos depois quebram sem nunca ter servido pra nada além de extrair — e, principalmente, a sensação de que eu tava usando meu tempo inteiro pra organizar um mundo que não me dizia respeito.
Eu me levantei devagar.
— Beth, eu não vou fazer porra nenhuma.
Ela nem teve tempo de reagir direito.
— Com todo respeito, eu tô indo embora. Eu não aguento mais esse cheiro de Gudang, esse lugar…
Apontei pras paredes.
— E esses quadros são todos horrorosos… Mas esse aqui é bom.
Fiz uma pausa, já com ele na mão.
— Você tá me devendo. Vou levar.
O marido dela me olhou pela primeira vez, meio sem entender. O cigarro caiu da boca dele, ficou um segundo imóvel, até perceber que estava queimando a própria roupa.
— Boa tarde pra vocês. Eu vou dar um mergulho.
Saí sem esperar resposta.
Desci um quarteirão até a praia do Leme, tirei o tênis, a camisa, a calça jeans — não sei por que eu tava de calça naquele dia — e fiquei só de cueca, uma boxer preta. Tirei um resto de baseado do bolso, acendi, dei dois tragos, segurei a fumaça e falei baixo:
— Vai tomar no cú, Samuel.
E entrei no mar.
A água fechou sobre a minha cabeça de uma vez, abafando tudo. Por um instante, não tinha mais nome nenhum.
Na cobertura, dias depois, os advogados estavam sentados em volta de uma mesa de madeira pesada. Os filhos e netos do velho mantinham uma compostura tensa, atravessada por olhares curtos, como se qualquer palavra fora de lugar pudesse desorganizar aquilo tudo. Havia um protocolo sendo seguido, ainda que ninguém ali parecesse acreditar muito nele.
Um dos advogados ajeitou os papéis e limpou a garganta.
— Conforme disposto em testamento, a decisão final deve ser… manifestada.
Houve um silêncio breve, daqueles que não pertencem exatamente a ninguém.
Um funcionário entrou na sala carregando uma gaiola pequena.
Colocou sobre a mesa.
Abriu.
O papagaio saiu com passos curtos, calculados, como se aquele espaço já fosse conhecido. Parou no centro da mesa, inclinou levemente a cabeça, observando os rostos ao redor — um por um.
Ninguém falou nada.
O bicho abriu o bico.
E, com uma clareza desconcertante, disse:
— Samuel que manda.


ahahahahaha muito bom!